Belíssima visão amorosa e afetuosa de Mirna Grzich pelo Brasil e este momento da copa.
A nossa família é o Brasil e todos os brasileiros. Então não cabe a nos julgar, se esquivar, mas sim vivenciar o amor e esta Copa com afeto, por todos e por tudo.
Lembrando das palavras da Arquéia Fé: "Na Família, está o Amor. Na Família, está a energia que deve ser trabalhada espiritualmente, para ser transformada em Amor."
A Copa do Afeto
Mirna Grzich, jornalista, estudiosa da meditação
Tenho pensado, meditado e lido muito sobre este momento que passamos
no Brasil. A Copa, as manifestações, o sensação de impotência que
muitos sentem diante dos desmazelos e da corrupção que cercou tudo.
Tenho minhas angústias e desencantos, há momentos em que penso em sair
do Brasil de novo, afinal tenho green card e sou filha de pai croata,
posso viver tanto nos States como na Europa. E já vivi fora, viajando
como jornalista e buscadora, por esse mundão de Deus. Mas onde encontrar
essa simplicidade de ser, essa rapidez com que nos comunicamos, essa
malícia inocente que todo brasileiro simplesmente É? Onde encontrar o
afeto que vibramos tão bem?
Acho que essa Copa é a maior
realização de um sonho que todos brasileiros temos, de sermos
entendidos, respeitados, amados. Não é porque Lula apareceu na tv hoje
falando dos índices brasileiros, mas eu andei pensando nele esses dias,
no seu sonho de trazer a Copa para o Brasil, (quanto deve ter custado
rechear os bolsos da Fifa para conseguir)... 12 cidades... Eu quase o
compreendi, pela primeira vez tive compaixão dele, na sua ânsia de
deixar um legado, um presente, uma divulgação retumbante da nossa
cultura brasileira.
O Brasil é um imenso continente, com
ecossistemas humanos e naturais inacreditáveis. Fortaleza é uma coisa,
Porto Alegre é outra, Rio é uma coisa, São Paulo outra... Manaus uma
coisa, Belo Horizonte outra... Sotaques, belezas, artes, modos, sons,
cheiros... Jeitinhos...
Que melhor maneira de mostrar nossa
cultura, hábitos, comidas, maneiras de ser, do que despejar todos esses
jogadores, jornalistas e turistas do mundo todo, seguindo suas
delegações, para conhecer essas cidades, esses mundos tão diversos? Como
disse Nizan Guanaes, na sua crônica na Folha, nesta terça 10, isso não
tem preço.
Mesmo com todo desmazelo. Mesmo com tanta revolta no
coração. A gente sabe receber bem, com muito carinho e consideração. E a
gente sabe encantar. Pela beleza - somos um povo cada vez mais bonito.
Pela
gentileza
- somos um povo gentil (crimes bárbaros sempre aconteceram).
Mesmo assustados e chocados com os incendiários black blocks e pccs, não
perdemos essa gentileza.
Pela inteligência - somos rápidos, intensos, apaixonados...
Pela
linguagem - um português tão diferente de Portugal, tão mais doce.
Pela
modernidade - somos ligados na moda, nas tendências, somos um povo
ansioso de experimentar o novo, a novidade, o último trend. E pelo
afeto, que pressinto vai conquistar os corações e mentes de quem nunca
pisou aqui e imaginava uma coisa completamente diferente.
Escrevam
o que eu digo. Essa Copa vai durar um mês, e quem vier pra cá vai se
apaixonar, porque somos apaixonantes. Quem está chegando pra Copa vai
descobrir uma bagunça impossível de acontecer em qualquer outro lugar
deste planeta, um caos inimaginável que se auto-organiza; uma violência
polarizada com humanidade, não que nossos bandidos sejam melhores, eles
já se globalizaram e estão mas violentos e cruéis do que nunca, padrão
gangster americano com milícias africanas. Mas nossa sujeira não é mais
suja que na India, com nossos valões e favelas, nem nossa poluição é
pior que a China, com suas usinas, nem nossa corrupção pior que a
Rússia, nem nossa democracia e liberdade de expressão piores que muitos,
mas muitos países por aí.
Nossa alegria quando a Copa começar
vai mudar tudo, precisamos tirar essa timbragem cinza do nosso
subconsciente, essa nuvem negra do nosso astral, alguém nos convenceu
que precisamos ficar com raiva, cara amarrada, mas agora é hora de
FESTA.
Quem vier pra cá vai se apaixonar pelo Brasil que está se
reinventando, que deu as costas pra Copa mas já está olhando de
soslaio, tipo "mas peraí, vai acontecer no meu quintal e eu não vou
curtir?"
Como diz meu querido amigo sufi Sergio Veleda, não
acredito num Deus que não dança. Como aquele tipo de militante que não
ria, não se divertia, não dançava, em nome da revolução. E o tempo
passou, a barriga cresceu, o militante morreu, cheio de ideias, e sem
prazeres viveu.
Cansados de ideologias e desigualdades vemos
pensadores como Domenico De Masi reforçando a antiga e sebastiana tese
do "Brasil, país do futuro, que sabe viver". Vejo jovens precocemente
envelhecidos, filhos e filhas de amigos, papagaiando ideias vencidas,
trotskistas, maoístas, istas istas. Ao mesmo tempo, pipocam na internet
mística ondas de preces, orações pela paz, entendimento, integração. A
tal polaridade.
Tenho três talentos como representante desse ethos
brasileiro dentro de mim: como comunicadora, percebo o foco todo em
nós, e a oportunidade de reclamar sim, mas de mostrar essa alma
brasileira. Como atriz, quero simbolicamente entrar em cena, me
expressar, aproveitar essa oportunidade e brilhar. No campo, nas festas,
nas ruas. Como terapeuta, quero procurar curar as feridas e pacificar
polaridades que afastam, separam, desunem. Celebrar a união, a paz.
Religar.
O discurso de Dilma ontem foi muito bem (diabolicamente)
escrito, como sempre pelo marqueteiro mor, e tenho certeza teve o dedo
de Lula. Mas não senti raiva. Senti compaixão por esse país, por esse
povo, por tudo que ainda não fizemos, por tudo que precisamos fazer para
corrigir rotas, principalmente na área de sustentabilidade, onde
perdemos terreno fragorosamente. Podíamos ter dado um salto qualitativo,
ter menos consumo, menos carro nas ruas, menos poluição, mais
civilidade, e um sistema de transporte do futuro, mas pensou-se a
curtíssimo prazo, na fome, no sustento, no problema imediato. E no que
encheria mais os bolsos para um projeto politico de longo prazo.
E
nisso, na fome, no básico, melhoramos muito. Tudo isso que está aí
agora somos nós, essa bagunça, desorganização, caos, nós somos
responsáveis, mas sem culpa digo, vamos dar o nosso melhor, vamos curtir
essa Copa, vamos ser Brasil. Vamos ser apaixonantes. Vamos THRIVE, que
pra mim tem a melhor tradução em EXUBERAR.
Fonte:
http://www.brasilpost.com.br/mirna-grzich/a-copa-do-afeto_b_5483799.html